Quando o sol nasceu naquele 25 de junho do ano 173, Jesse já explorava o que restava de um antigo bairro residencial, aproveitando o silêncio da manhã, que tornava mais fácil perceber qualquer movimento entre as casas abandonadas e que, naquela parte da cidade, quase sempre significava segurança.
A maioria das construções já havia sido vasculhada muitas vezes, mas sempre existia a possibilidade de encontrar alguma coisa esquecida, uma ferramenta, um pedaço de tecido ainda aproveitável, um recipiente intacto; até os quintais podiam esconder pequenos tesouros, e algumas árvores frutíferas ainda sobreviviam, dando sementes que ultimamente valiam como boa moeda de troca.
Naquele dia, porém, Jesse tinha menos tempo que de costume, pois sua mãe havia insistido para que voltasse cedo: era uma data especial. Jesse nascera no ano 155, e naquele dia completava dezoito anos.
Entrou em uma das casas e seguiu até um quarto que parecia ter pertencido a um jovem, muito tempo atrás, onde havia móveis cobertos por uma espessa camada de poeira e objetos cuja utilidade ele desconhecia. Abriu o armário, e algumas camisas ainda permaneciam penduradas em cabides; tocou uma delas e o tecido se desfez entre seus dedos, então limpou a mão na calça e estava prestes a fechar a porta quando percebeu algo diferente.
Uma jaqueta azul.
Puxou-a pelo cabide e viu que estava em excelente estado. Passou a mão pelo tecido, primeiro com cuidado, depois com mais força, e não encontrou nenhum rasgo, nenhum sinal de apodrecimento, o que o fez sorrir: era dia de sorte, pois, além de completar dezoito anos, acabara de encontrar seu próprio presente.
Vestiu a jaqueta, um pouco grande, mas que servia, e, antes de fechar o armário, percebeu uma pequena etiqueta costurada na parte interna. Aproximou-a da luz da janela e leu devagar:
FIBRA SINTÉTICA EX3
FABRICADO EM TAIWAN — 2158
Franziu a testa. Taiwan — nunca tinha ouvido aquela palavra, e não sabia dizer se seria uma cidade, uma pessoa, ou talvez algum lugar do mundo antigo. O número também o incomodou. Tentou encaixá-lo em algo que conhecesse: o ano em que nascera, o ano em que sua mãe nascera, os anos que o avô costumava citar nas histórias mais antigas que contava. Nenhum chegava perto. Era como tentar medir uma distância sem ter referência de onde começava.
Foi então que ouviu um estalo, baixo e seco, vindo do corredor, e congelou. Não era o som da casa se acomodando, o gemido lento da madeira, o vento entrando pelas frestas, que ele já conhecia bem; aquilo fora diferente, um passo, talvez dois. Levou a mão à faca presa no cinto e prendeu a respiração, contando até dez em silêncio, mas nada mais veio.
Aproximou-se da porta com cuidado, mantendo o corpo colado à parede, e espiou o corredor, que estava vazio. Só então percebeu a janela dos fundos entreaberta, batendo levemente com o vento, e entendeu de onde viera o barulho. Soltou o ar que nem sabia estar segurando, embora o coração ainda martelasse no peito. Não era a primeira vez que o vento o assustava dentro de uma casa abandonada, mas Jesse já havia aprendido que ignorar um ruído por achar que não era nada podia ser um erro muito pior do que se assustar sem motivo.
Esperou mais um pouco antes de se permitir relaxar, e por alguns segundos tentou lembrar-se das histórias que a avó costumava contar, histórias longas sobre coisas que existiam antes de ela nascer, que por sua vez haviam sido contadas pelos pais dela e pelos pais de seus pais. Na maior parte das vezes Jesse não prestava muita atenção, e agora se arrependia, embora ao menos sua mãe houvesse insistido para que aprendesse a ler e escrever, coisa que poucos ainda sabiam fazer.
Jesse ajeitou a jaqueta nova, saiu da casa e, antes de partir, riscou um grande X na porta: explorada.
Caminhou até a esquina, parou, retirou da bolsa uma pequena luneta, uma das ferramentas mais úteis que encontrara em suas explorações, e observou atentamente a rua, depois as janelas, os telhados, a entrada das casas. Nada, nenhum movimento, nenhum sinal de vida. Guardou a luneta: era seguro voltar para casa.
Ainda precisava, porém, fazer uma parada, pois naquele dia era a vez de seu grupo verificar a correspondência, e o antigo posto de correio ficava no caminho. Jesse empurrou a pesada porta de entrada e entrou no saguão silencioso, onde as pequenas caixas metálicas ocupavam uma das paredes, quase todas abertas, enferrujadas ou abandonadas, com apenas algumas ainda em uso.
Começou a conferir os nomes. A caixa número três havia mudado: até a semana anterior, uma pequena placa de madeira dizia 9 da Rua 5, e agora estava escrito 7 da Rua 5. Jesse ficou alguns segundos olhando para aquilo, entendendo que duas pessoas haviam partido, e continuou.
Foi então que percebeu outra mudança: uma caixa que antes permanecia vazia agora tinha uma pequena placa, 3 da Rua 17. Jesse sorriu, pensando em um grupo novo e pequeno. Talvez recém-chegados, talvez pessoas que tivessem deixado outro grupo para formar o próprio. Apesar de todas as dificuldades, a comunidade continuava mudando.
A caixa número quatro pertencia à sua família, 5 da Rua 9, e havia apenas um papel dobrado lá dentro.
Antes de retirá-lo, porém, seus olhos pararam na caixa ao lado.
9 da Rua 1.
Conhecia aquela família de vista, como conhecia quase todo mundo numa comunidade daquele tamanho. A mãe, as filhas, os homens que saíam cedo e voltavam tarde. Nunca tivera razão especial para pensar neles mais do que em qualquer outro grupo.
Jesse retirou o papel da própria caixa e viu, na parte externa, o nome de sua mãe: Marta. Deveria simplesmente guardar o bilhete e entregá-lo a ela, mas naquele dia Jesse tinha dezoito anos, e foi essa, pelo menos, a justificativa que encontrou para abri-lo.
Reconheceu a assinatura dos 9 da Rua 1 e começou a ler.
Marta, minha querida amiga, seu filho Jesse está prestes a completar dezoito anos, e minha filha Laura completará dezoito em alguns meses. Tereza, minha filha mais velha, descobriu recentemente que está grávida, e já somos nove, enquanto vocês são apenas cinco. Preciso muito de sua ajuda neste momento, minha amiga: aceitaria Laura em sua casa para ser esposa de Jesse? Sei que ela será bem tratada por sua família.
Jesse releu o bilhete, depois leu novamente, e sentiu o rosto esquentar. Laura? Mal havia conversado com ela. Na verdade, não conseguia lembrar de uma única conversa entre os dois. Ainda assim, uma imagem surgiu imediatamente: dois invernos antes, Laura carregava água na Rua 1, o cabelo preso e os braços firmes ao redor do balde. Ao perceber Jesse, lançara um olhar rápido em sua direção antes de desaparecer porta adentro. Não havia motivo para que ele ainda se lembrasse daquilo. E agora alguém estava sugerindo que ela se tornasse sua esposa.
Dobrou rapidamente o papel, colocou-o no bolso, e sentiu o entusiasmo pela jaqueta desaparecer por completo. Durante todo o caminho para casa, tentou imaginar o que sua mãe diria, já que nunca havia pensado seriamente em casamento, muito menos em ter uma esposa dentro de poucos meses; mas havia algo ainda pior, pois Tereza estava grávida, e os da Rua 1 já eram nove.
Jesse apressou o passo, sem querer sequer imaginar o que aconteceria se sua mãe recusasse.
Quando finalmente chegou em casa, estava pálido e suava apesar do frio. Abriu a porta.
— Surpresa!
Jesse deu um passo para trás. Sua mãe, Marta, estava no centro da sala, e ao lado dela estavam seu avô paterno, seu tio, irmão de Marta, e a esposa dele, todos cantando parabéns, enquanto sobre a mesa havia um bolo, um bolo de verdade.
Por alguns segundos, Jesse esqueceu completamente o bilhete no bolso, pois a última vez que comera um bolo havia sido quando completara dez anos, e ainda se lembrava do sabor como se tivesse acontecido na semana anterior. Olhou para a mãe, sem fazer ideia de quantas trocas ela precisara fazer para conseguir todos aqueles ingredientes.
Marta abriu os braços.
— Feliz aniversário, meu filho.
Jesse sorriu e a abraçou, mas, enquanto todos admiravam sua jaqueta nova e seu avô brincava dizendo que agora ele finalmente parecia um homem, Jesse sentiu o papel dobrado contra a perna: o bilhete continuava em seu bolso, e, pela primeira vez naquele dia, ele desejou ainda não ter completado dezoito anos.
Depois do abraço, Jesse tentou deixar o bilhete de lado, e não foi difícil no começo, já que o bolo ocupou toda a sua atenção. Marta havia conseguido farinha, ovos e até um pouco de açúcar, e o resultado não era tão bonito quanto os bolos que sua avó descrevia nas histórias do mundo antigo, mas, para Jesse, aquilo pouco importava.
Cortou um pedaço pequeno, levou-o à boca devagar e fechou os olhos.
— Então? — perguntou Marta.
Jesse demorou alguns segundos para responder.
— Está melhor que o de quando fiz dez anos.
— Mentiroso.
Todos riram.
— Aquele estava horrível — disse seu tio.
— E você comeu três pedaços — respondeu Marta.
— Justamente por isso posso afirmar.
As risadas voltaram a preencher a casa, e por alguns minutos Jesse conseguiu esquecer o papel dobrado em seu bolso. Contou sobre a jaqueta, mostrou a etiqueta ao avô e perguntou se ele sabia o que era Taiwan.
O velho segurou a peça entre os dedos, aproximou a etiqueta dos olhos e repetiu, pensativo:
— Taiwan… Acho que era um lugar.
— Onde?
— Longe.
Jesse esperou.
— Só isso?
— Eu nasci depois de tudo, Jesse. Meu pai saberia responder, e talvez sua avó também soubesse.
Jesse abaixou os olhos, pensando outra vez na avó, outra vez em uma pergunta que deveria ter feito enquanto ainda podia.
— E 2158?
O avô devolveu a jaqueta.
— Ano antigo.
— Eu sei que é um ano antigo, quero saber o que significa.
— Significa que eles contavam diferente.
— Por quê?
O velho deu de ombros.
— Porque o mundo era diferente.
Jesse percebeu que não conseguiria mais do que aquilo, e a conversa seguiu para outros assuntos: seu tio quis experimentar a jaqueta, enquanto a esposa dele reclamava que Jesse estava alto demais e que em pouco tempo nenhuma roupa da casa serviria nele.
Então Marta percebeu alguma coisa.
— Você passou no correio?
Jesse parou de mastigar, enquanto todos continuavam conversando, e colocou a mão no bolso.
— Passei.
— Tinha alguma coisa?
Jesse retirou o bilhete dobrado e colocou-o sobre a mesa. Marta olhou primeiro para o papel, depois para o filho.
— Estava aberto?
Jesse sentiu novamente o rosto esquentar.
— Eu fiz dezoito anos hoje.
Seu tio começou a rir.
— Isso não respondeu à pergunta.
Marta pegou o bilhete.
— Jesse.
— Eu li.
Ela soltou um suspiro.
— Era para mim.
— Eu sei.
— Então não deveria ter lido.
— Mas era sobre mim.
Marta ficou em silêncio por um instante.
— Isso também é verdade.
Ela abriu o papel, e Jesse observou o rosto da mãe enquanto ela lia, esperando surpresa; não houve nenhuma. Marta apenas respirou fundo e dobrou novamente o bilhete.
— Você já sabia — disse Jesse.
Seu tio e a esposa trocaram olhares, e Marta levantou-se.
— Venha comigo.
— Mãe…
— Venha.
Ela caminhou até a porta dos fundos, e Jesse a seguiu. Do lado de fora, o sol já começava a desaparecer atrás das casas e das árvores, a pequena horta ocupava boa parte do quintal e, mais adiante, algumas galinhas procuravam alimento perto da cerca.
Marta sentou-se em um velho banco de madeira, enquanto Jesse permaneceu em pé.
— Você sabia — repetiu ele. — Sabia que Tereza estava grávida.
— E sabia sobre Laura?
— Sabia que sua mãe estava procurando uma casa para ela.
Jesse sentou-se ao lado dela.
— E você não me contou?
— Estou contando agora.
— Depois que eu mesmo descobri.
— Jesse, ontem você tinha dezessete anos.
— E hoje alguma mulher decidiu que eu deveria me casar com a filha dela.
Marta conteve um sorriso.
— Não foi exatamente isso que ela escreveu.
— Foi quase isso.
— Ela fez uma proposta, para você, porque esta é a minha casa.
Jesse olhou para a horta.
— Também é minha.
— E é por isso que a decisão não será apenas minha.
Aquilo o fez olhar novamente para ela.
— Então eu posso recusar?
— Claro.
A resposta veio tão rapidamente que Jesse sentiu o corpo relaxar.
— Ninguém vai obrigá-lo a se casar com Laura.
Ele respirou fundo.
— Ótimo.
Marta permaneceu olhando para ele, e o alívio durou pouco.
— O quê? — perguntou Jesse.
— Nada.
— Você está fazendo aquela cara.
— Que cara?
— A cara que você fazia quando eu era criança e tinha feito alguma coisa errada.
— Você ainda é uma criança.
— Tenho dezoito anos.
— Há algumas horas.
Jesse quase sorriu, quase, mas então lembrou-se do bilhete.
— E se eu disser não?
— Você diz não.
— Só isso?
Marta assentiu, e Jesse olhou novamente para a casa, pensando em números: cinco ali dentro, nove na Rua 1, sete na Rua 5, que até a semana anterior eram nove, três na Rua 17, que até pouco tempo não existiam. Desde criança aprendera a contar pessoas antes de qualquer outra coisa, e nunca havia se perguntado por quê; simplesmente era assim.
— E o que acontece com Laura, se eu recusar?
Dessa vez Marta não respondeu imediatamente, e Jesse esperou.
— Mãe?
Ela olhou para as árvores além da cerca.
— Isso caberá aos nove da Rua 1 decidir.
— Mas se Laura ficar lá…
— Jesse.
A forma como ela pronunciou seu nome foi suficiente, e ele parou, pois conhecia aquela regra desde antes de aprender a falar e não precisava que a mãe terminasse a frase. Ainda assim, nunca havia pensado nela daquela maneira, nunca havia conhecido alguém que estivesse prestes a... não, Laura não estava prestes a coisa alguma, ainda havia tempo.
— Quanto tempo? — perguntou.
Marta entendeu.
— Tereza acredita estar no terceiro mês.
Jesse fez as contas.
— E se encontrarem outra casa?
— É o que estão tentando fazer.
— Os sete da Rua 5 agora são sete, Laura pode ir para lá.
— Talvez, ou para os três da Rua 17.
— Então não precisa ser aqui.
— Não.
A resposta deveria tê-lo tranquilizado, mas não tranquilizou.
— Você quer que ela venha?
Marta demorou um pouco.
— Quero que você escolha a vida que deseja, Jesse, mas quero também que entenda que, às vezes, nossas escolhas alcançam pessoas que nem sequer estão na mesma casa.
Jesse não respondeu, e Marta levantou-se e tocou seu rosto.
— Hoje é seu aniversário, não precisa decidir nada hoje.
Ela voltou para dentro, e Jesse permaneceu no quintal, sozinho com os números que insistiam em se rearranjar na cabeça, e com uma imagem que não devia ter guardado por tanto tempo: um balde de água, um olhar rápido, uma porta se fechando.
Quando voltou para dentro, seu avô o esperava perto da mesa.
— Finalmente — disse o velho. — Achei que sua mãe fosse passar o resto do aniversário lhe dando sermão.
— Quase.
— Então ainda tenho tempo.
O avô colocou diante dele um pequeno embrulho envolvido em tecido.
— O que é isso?
— Abra.
Jesse desfez o nó, e dentro havia um caderno pequeno, de capa escura e dura, com as bordas gastas, mas as folhas surpreendentemente preservadas. Passou os dedos pela capa.
— Era da sua avó — disse o velho.
Ele levantou os olhos.
— Da vó?
— Ela queria que você recebesse quando fosse adulto.
Jesse abriu a primeira página, onde havia uma frase escrita à mão, e reconheceu imediatamente a caligrafia:
Para Jesse.
Abaixo, outra linha:
Há coisas que você precisa saber sobre o mundo de antes.
Jesse sentiu um arrepio e virou a página, mas seu avô colocou a mão sobre o caderno antes que ele pudesse continuar.
— Amanhã.
— Por quê?
— Porque hoje você faz dezoito anos.
O velho apontou para a mesa.
— E ainda tem bolo.
Jesse olhou para o caderno, depois para a jaqueta azul que vestia: Taiwan, 2158. Pela manhã, aquilo não significava nada; agora havia um livro escrito por sua avó em suas mãos, um livro sobre o mundo de antes.
Jesse fechou o caderno.
Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, não conseguiu dormir pensando no que poderia encontrar nas ruínas no dia seguinte. Ficou acordado pensando no passado, e em um olhar que durava menos de um segundo antes de virar numa esquina, e em como era possível carregar uma coisa tão pequena por tanto tempo sem saber exatamente por quê.